sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A web muda a economia e a política

Sites colaborativos, como a Wikipedia e o Twitter, levam a inovações na maneira de atuar politicamente e de criar riquezas no mundo
No meio do ano em 2009, milhares de manifestantes ocuparam as ruas de Teerã, a capital do Irã. Eles protestavam contra a confirmação da reeleição de Mahmoud Ahmadinejad à Presidência do Irã, com 63% dos votos, e acusavam o resultado das eleições de fraudulento. A manifestação contra o governo foi considerada a maior nestes 30 anos do regime dos aiatolás.
A contestação do resultado do pleito levou o governo a impor um blecaute informativo. Mensagens de texto por celular foram bloqueadas, assim como diversos sites da internet O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo político e re¬ligioso do país, que controla as Forças Armadas, a mídia e a Justiça, pediu à imprensa e aos opositores dos resultados oficiais que usassem apenas "vias legais" para divulgar os acontecimentos que sucederam as eleições.
Após o bloqueio do sistema de mensa¬gens de celular e a censura de diversos sites, entre eles redes sociais como o Facebook e o Orkut, o microblog Twitter passou a ser a principal ferramenta de comunicação dos iranianos para mostrar ao mundo a repressão às manifestações de rua contrárias à reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad. Tags como "Iranians" (iranianos), "iranelection" (elei¬ções no Irã) e "Tehran" (Teerã) estavam entre os mais comentados do Twitter.
A internet como ferramenta política também foi utilizada durante a campanha de Barack Obama à Presidência dos Esta¬dos Unidos. A web foi usada para levantar
dinheiro, organizar comícios e comparti¬lhar informações, A utilização das redes sociais pelos jovens durante a campanha elevou a participação desse segmento nas eleições, o que foi fundamental para Oba¬ma, e marcou o início de uma militância política apoiada em ferramentas virtuais de comunicação que aliam interatividade e rapidez na divulgação dos dados.
O Twitter é ao mesmo tempo uma rede social e servidor para microblogíng. Com a utilização da web ou do SMS (serviço disponível em telefones celulares), os usuários podem enviar mensagens curtas de até 140 caracteres, conhecidos como "tweets", ou ler atualizações pessoais de outros contatos em tempo real. Em maio de 2009, a Sysomos, empresa de pesquisa de mídia social, analisou mais de 11,5 mi¬lhões de contas e constatou que a maior concentração de usuários do Twitter está nos Estados Unidos, seguida das do Reino Unido, Canadá, Austrália e Brasil.
O número de usuários dos conteúdos produzidos (blogs; redes sociais, como o Facebook e o MySpace; microblog-ging, como o Twitter; wikis; marcadores colaborativos; notícias; podcast e sites de vídeos compartilhados, como o You-Tube) cresce sem precedentes. Mais de meio bilhão de indivíduos usam esses sites colaborativos no mundo inteiro. A Wikipedia, enciclopédia livre criada em 2001, é um exemplo emblemático de site colaborativo. Como resultado, isso tem provocado mudanças nas formas que as pessoas utilizam para escolher produtos, obter informações e emitir opiniões.
O processamento em tempo real desse volume de informações também tem sido usado por empresas como estratégia de negócios. Por exemplo, executivos e ana¬listas recorrem a esses sites colaborativos não só para atualizar informações quanto às vendas realizadas em diferentes regi¬ões como também para conhecer o nível de satisfação dos consumidores sobre determinados produtos.
No Brasil, um quarto dos microblogs mais seguidos é de companhias, veículos de comunicação ou sites. A vantagem desse tipo de mídia é possibilitar a comunicação da empresa com seu cliente por um baixo custo. Segundo a contabilidade do Twitter Counter, em junho de 2009, a loja on-line Submarino liderava entre os microblogs nacionais, com cerca de 17 mil seguidores.
Web 2.0
Essa nova produção de serviços na internet que valoriza o conteúdo colaborativo entre internautas em sites e redes sociais, tornan¬do o ambiente on-line mais dinâmico, faz parte de um movimento conhecido por web 2.0, que revolucionou a world wide web (www), versão gráfica da in¬ternet, que permite fácil navegação. O termo web 2.0 começou a ser usado em 2004, quando o irlandês Tim O'Reilly organizou a primeira conferência sobre o assunto. A web não foi sempre interati¬va. Quando surgiu a interface gráfica da internet, que foi criada pelo físico inglês Tim Berners Lee, em 1991, seu conteúdo era meramente expositivo, ou seja, combinava texto e imagem por meio de pági¬nas interligadas.
Na web 2.0, os softwares não são instalados no com¬putador pessoal; funcionam pela rede mundial de compu¬tadores, a partir da integra¬ção de vários programas que operam de maneira aberta. Ou seja, uma parte do programa pode ser utilizada por qual¬quer pessoa para criar outro programa. Na web 2.0, os grandes servidores foram substituídos pela troca de arquivos P2P (do inglês Peer-to-Peer: par a par), na qual os arquivos são trocados diretamente entre os usuários.

Globalização
O processo de globalização está in¬timamente ligado ao crescimento da internet, a mais completa e dinâmica fonte de informação instantânea do planeta, que permite a troca imediata de contratos e valores entre as mais longínquas partes do globo. A internet provocou também um impacto na di¬visão internacional do trabalho, pois facilitou muito a possibilidade de co¬ordenar uma equipe ou até uma linha de produção em outro país. Isso está mudando a economia mundial. Com a transmissão de informações facilitada, encurtaram-se distâncias, eliminaram-se desperdícios, verificaram-se ganho de tempo e, por nmf incremento de negócios. Nunca se viu crescimento tão grande do comércio global como o ocorrido na segunda metade do século XX. Em 50 anos, o volume anual de tran-sações aumentou de 61 bilhões para 6,4 trilhões de dólares - graças, em grande parte, ao desenvolvimento das teleco¬municações. Um dos principais saltos foi dado em 1991, quando Tim Berners Lee apresentou ao mundo sua criação: a world wide web. Era o resultado de uma caminhada que começou com a criação da primeira rede de computadores in¬terligados por fios, em 1964.
Acesso desigual
Acessar um computador e a internet pas¬sou a ser uma condição para a cidadania, pois não estar conectado à rede mundial significa ter mais dificuldade para avançar profissionalmente ou obter um emprego. Quem está fora da rede tem menos meio de expressão, aprendizado, acesso à informação e escassas oportunidades de trabalho.
Boa parte do planeta permanece alheia as vantagens proporcionadas pela rede mun¬dial de computadores. Dados do World Internet Stats, instituição que mede a si¬tuação da rede em nível global, mostram que a internet estava presente na vida de apenas 24% da população mundial no iní¬cio de 2009, o equivalente a 1,5 bilhão de
pessoas. Registra-se o maior índice de uso da internet na América do Norte (Estados Unidos e Canadá), com 74% da população regularmente conectada. A Ásia, que abriga 56% da população mundial, tem apenas 17% dela acessando a rede, a maioria na China, seguida do Japão, da índia e da Coréia do Sul. O menor índice fica com a África. No continente inteiro, apenas 5,6% da popula¬ção acessa a rede com freqüência. No Bra¬sil, cerca de 34% da população tem acesso à rede. Segundo a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Esta¬tística (IBGE), em 2007 apenas 20,5% das residências brasileiras estavam equipadas com computador.
Esse alto nível de exclusão significa que a grande maioria da humanidade não está conectada a um mundo de oportunidades pessoais e de negócios. Isso apesar de a internet ter crescido 342% desde 2000.

Software livre
Uma iniciativa para o combate à exclu¬são digital é o uso dos softwares livres. Este é o nome dado aos programas de computador que podem ser utilizados, copiados, alterados e distribuídos gratui¬tamente, dentro da lei, como o sistema operacional Linux. O modelo foi criado em 1992, pelo filandês Linus Torvaíd, com base nas idéias do movimento que começou sete anos antes por Richard Stallman, do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Os softwares livres não têm custo de royalties e podem ser
adaptados de acordo com as necessi¬dades locais, o que estimula o desen¬volvimento de tecnologias nacionais e abre perspectivas de renda para quem trabalha no ramo.

Situação do Brasil
No Brasil, o Comitê para a Democrati¬zação da Informática (CDI) já atingiu mais de l milhão de pessoas em seus 14 anos de existência. Em 2008,255 mil pessoas passa¬ram por algum centro do CDI, que também recebeu 130 mil pessoas de baixa renda.
O governo brasileiro também tem uma po¬lítica de negociar a compra de computadores e o acesso à internet a preços mais acessíveis para comunidades com poder aquisitivo mais baixo. Por meio do programa Computador para Todos, iniciado em 2003, foi vendido l milhão de computadores populares.
TWITTER, A CRISE IRANIANA E AS MOBILIZAÇÕES SOCIAIS
Nem todas as multidões se parecem. As¬sim, nos mundos muçulmanos as revol¬tas contra as caricaturas dinamarquesas de Maomé deram lugar ao que Howard Rheingold chamou de "multidões inte¬ligentes". Em Teerã, elas contestam os resultados da eleição presidencial.
O conceito de "smart mob" foi de¬senvolvido no início dos anos 2000 por esse professor da Universidade Stanford, em "Smart Mobs -The Next Social Revolution" ["Multidões Inteligentes - A Próxima Revolução Social"]. Ele mostrava, desde 2002, corno as novas tecnologias permitiam o surgi¬mento de comunidades de interesses pontuais capazes de influenciar o curso da História (...). Hossein Mousavi,que conquistou seu eleitorado nas grandes cidades por urna utilização em massa do Facebook, além das reuniões e dos encontros de rua, vê hoje seus parti¬dários organizar manifestações com a ajuda do Twitter, um comunicador instantâneo inventado na Califórnia e lançado três anos atrás. (...)
Evidentemente, as novas tecnologias modificam as relações de força entre o
Estado e os cidadãos. (...) Hoje todos podem criar urna mídia na internet sem ter de investir centenas de mi-jhâesdeeuros. Há cinco ou seis a nos, novas ferramentas, como o Facebook ou o Twitter, dão a todos o meio de informar em tempo real a seus ami¬gos - ou ao mundo - sobre a marca de cereais consumidos de manhã ou sobre a necessidade de se encontrar às 14 horas para derrubar o governo. C...) Nos Estados Unidos, não foi ne¬nhum milagre a internet, o Facebook e os SMS terem contribuído para a eleição à Presidência de Barack Obama. A crise de regime que o Irã vive está sendo exposta graças ao Twitter. Esse comunicador permite que qualquer um, a partir de um computador ou de um te¬lefone celular, organize manifestações para exigir novas eleições. (...)
A importância diplomática dessa fer¬ramenta foi revelada, em 15 de junho, quando um conselheiro de Obama pe¬diu que o Twitter adiasse uma operação de manutenção para que os iranianos não fossem privados da única ferra¬menta de comunicação que o regime dos mulás [líderes religiosos islâmicos parece incapaz de cortar.(...)

Lê Monde, Yves Mamou
Saiba mais lendo : Atualidades vestibular – editora Abril

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