sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Energia - Motivo de disputas

Assim, vimos que o petróleo atualmente move a economia mundial. Como quase dois terços das reservas globais compro¬vadas estão no Oriente Médio, a região é de grande importância geopolítica, pois, quando os estoques da maioria dos de¬mais países já estiverem se esgotado, os da região continuarão a ter o ouro ne¬gro, e ele valerá ainda mais. Durante o século XX, o Oriente Médio foi alvo de ocupações e intervenções militares das
nações mais ricas. Na primeira metade do século passado, pelo Reino Unido e pela França, especialmente. Após a II Guerra Mundial e com o fim do colonialismo, passou a ser área de influência e atuação diplomática, política e militar dos Estados Unidos (EUA), com ou sem a participação de aliados europeus.
Os Estados Unidos consumiam, em 2003,27% de todo o petróleo produzido no mundo. Do total que o país consumiu, mais da metade (54%) foi importada. Nos últimos 20 anos, as importações nor-te-americanas cresceram a uma média constante de 5% ao ano. Paralelamente, os EUA acentuaram suas intervenções militares no Oriente Médio.
Os norte-americano s mantêm bases militares permanentes e também frota naval na região do golfo Pérsico. Durante a década de 1980, os EUA estiveram em conflito aberto com a Líbia (país árabe do norte da África), que tem 90% de suas receitas externas vindas de petróleo, c chegaram a bombardear a capital, Trí-poli, e a cidade de Benghazi, em 1986. No mesmo período, os EUA entraram numa escalada de conflitos diplomáticos e militares com o Ira, após a revolução popular que derrubou o xá Reza Pahleví, seu aliado, em 1979, e deu início ao regime dos aiatolás. Apoiaram o Iraque quando este invadiu o Ira, em 1980, numa guerra que durou oito anos.
Em 1991, com o apoio das Nações Unidas, os EUA lideraram pela primeira vez uma invasão no Iraque, na Guerra do Golfo, para forçá-lo a desocupar o Kuweit, que ele invadira no ano anterior. Em 2003, os EUA voltam a ocupar o Iraque, com o apoio do Reino Unido e de outros países, mas sem o aval das Nações Unidas, e derrubam a ditadura de Saddam Hussein. Atualmen-te, os EUA estão em conflito diplomático com o Ira, que é acusado de manter um programa clandestino para produzir armas nucleares a partir do enriquecimento de urânio - acusação negada pelo Ira.
Fora do Oriente Médio, os EUA estão em embates políticos e diplomáticos com a Venezuela, que tem as maiores reservas petrolíferas da América do Sul e da qual compram bastante petróleo há décadas. O governo de esquerda de Hugo Chávez acusa os EUA de imperialismo, de desres¬peitar sua soberania e de apoiar grupos que querem desestabilizá-lo. Neste ano, o governo norte-americano anunciou que está reabilitando sua frota militar na Amé¬rica Latina, que estava desativada.
Em razão da globalização da economia, do aumento do consumo, da possível escas¬sez do produto e até de pressões de grandes nações consumidoras e das empresas multi-nacionais, houve durante a década passada um movimento de associação de capitais, de fusões e de aquisições entre as empresas petrolíferas e de abertura de mercados. O Brasil, por exemplo, abriu nosso mercado em 1997 e quebrou o monopólio da Petro-bras, que passou a atuar como transnacional em mais países. A Líbia abriu seu mercado à atuação estrangeira em 1999.
A partir dos anos 1990, os países que são grandes consumidores e as empresas da área começaram a exercer atividade em nações que possuíam reservas de petróleo ou descobriram outras, prin¬cipalmente no continente africano. A exploração e a compra de petróleo na Nigéria, Angola, Sudão e Chade têm sido motivo de enormes disputas, sobretudo entre os Estados Unidos e a China.
Expansão da Ásia

O crescimento económico constante da China e da índia, que, juntas, somam 2,4 bilhões de habitantes (38% da população do globo), pede urgência em medidas para alterar a matriz energética mundial e substituir os derivados de petróleo, na avaliação da Agência Internacional de Energia (AIE). Esse é o tema central do relatório anual da entidade em 2007, que projetatrês cenários económicos possí¬veis para 2030. No cenário mais provável, caso os níveis de consumo atual não se alterem, poderá haver desabastecimento de petróleo, uma alta acentuada do preço e um consumo sem precedentes de carvão mineral, um dos piores poluentes, que será usado principalmente para produzir eletricidade em centrais térmicas. "As consequências são alarmantes para todo o planeta", diz o relatório.
"À medida que aumentam suas rique¬zas e seu poder aquisitivo, as populações da China e da índia vão consumindo mais energia em seus escritórios e fábricas, comprando mais eletrodomésticos e au¬tomóveis. Tudo isso contribui para uma grande melhoria de sua qualidade de vida, aspiração legítima que o resto do mundo deve compreender e apoiar", afirma o relatório. "As necessidades energéticas mundiais em 2030 serão 50% maiores que as de hoje. A China e a índia, juntas, representariam 45% dessa nova deman¬da. Esse padrão de consumo provocará um crescimento contínuo das emissões energéticas de dióxido de carbono e um aumento da dependência, por parte dos países consumidores, das importações de petróleo e gás, procedentes em sua maior parte do Oriente Médio e da Fe¬deração Russa. Ambas as circunstâncias intensificariam os temores relacionados às mudanças climáticas e à segurança do fornecimento de energia."
Nesse cenário, "a procura de petróleo alcançará 116 milhões de barris por dia em 2030, o que supõe um aumento de 32 milhões de barris diários (37%) em relação a 2006". O consumo de carvão cresceria 73% e sua participação na matriz energé-tica mundial passaria de 25% para 28%. O consumo de eletricidade dobraria e sua fatia na matriz subiria de 17% para 22%.
A China é um exemplo das dificuldades da situação: sua economia cresceu a uma média de 9% ao ano nas últimas três dé¬cadas e sua matriz de energia é composta de 70% de carvão mineral e mais 20% de petróleo. Com a taxa de crescimento económico se mantendo, é difícil imaginar como o país conseguirá reduzir o uso das fontes de energia que estão a seu alcance em um processo de substituição que vá durar várias décadas.
"O planeta não sofre uma escassez de recursos naturais nem de dinheiro, só de tempo", sintetiza o relatório da AIE. A agência propõe, então, um cenário alterna¬tivo com base em medidas para manter o desenvolvimento, mas frear o aquecimento global. As medidas são acelerar a adoção de políticas e tecnologias para reduzir o consumo e armazenar eletricidade, além de ampliar o uso de energia nuclear e das ener¬gias alternativas. A AIE destaca como "uma das alternativas mais promissoras" acelerar o uso do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), pelo qual os projetos que retiram carbono do meio ambiente resul¬tam em dinheiro vivo. Este é pago pelos interessados em reduzir suas emissões e alcançar as metas do Protocolo de Kyoto, que compram créditos de carbono dos países ainda sem metas. Talvez isso possa ajudar os chineses.
A gravidade do aquecimento acelerado da atmosfera tem levado alguns especialistas e ambientalistas a defender um remédio radical para salvar o doente: voltar a construir em larga escala as usinas nucleares, a mais cara e perigosa forma de gerar eletricidade já inventada. Elas seriam construídas para frear as termelétricas a carvão mineral, o vilão poluidor que tern consumo crescente. O argumento usado e o de que, apesar de produzir rejeitos sólidos que são radiativos por séculos - o chamado lixo atômico -, essas usinas não liberam na atmosfera gases do efeito estufa.
Evidentemente, essa proposta interessa bastante aos países que exportam as usinas por bilhões de dólares, como os Estados Unidos e a Alemanha. A Agenda Inter-nacional de Energia Atômica (AIEA) já divulgou um documento-base para essas discussões, chamado Considerações para o Lançamento de um Programa de Energia Nuclear. A favor da energia nuclear, o relatório registra que 1,6 bilhão de pessoas no mundo não tern acesso a eletricidade e que 2,4 bilhões cozinham queimando lenha ou algum tipo de biomassa. Contra ela, ressalva que a energia nuclear e cara, exige muitos funcionários treinados, programas e cuidados prévios e permanentes de segurança Alem disso, construir usinas é algo demorado Em 2005 havia no mundo 438 usinas nucleares em 30 países (veja mapa napá-gina ao lado). Em 2005, elas forneceram 15% do total de eletricidade no mundo, contra 16% das usinas hidrelétricas e 19% das termelétricas a gás. No conjunto, a distribuição parece equilibrada, mas a vi¬são é outra ao observarmos a localização das usinas nos diversos países. Os Estados Unidos possuem nada menos que 104 usinas nucleares (um quarto do total), com uma geração potencial instalada de 99 mil mega watts (MW), o equivalente à produção atual de toda a eletricidade do Brasil, que é de 100 mil MW instalados. A França, que fez a opção mais radical pela energia atômica, possui 59 usinas, com potencial instalado de 63 mil MW, 77% de toda a eletricidade do país. Jun¬tam-se a esses a Alemanha (19) e o Reino Unido (33), e vemos que apenas quatro países somam 215 usinas atômicas, quase metade do total global de 441.

Riscos e conflitos

O mundo já conhece o perigo potencial dessa energia, seja pelas duas bombas atômicas que os EUA lançaram sobre o Japão, em 1945, seja pelo risco dos aci¬dentes registrados nas décadas recentes, dos quais o de Chernobyl, em 1986, foi o mais trágico. O número de vítimas desse acidente nunca foi definido, mas as estimativas são de que entre 30 mil e 100 mil pessoas tenham morrido ou tenham sido contaminadas por radiação; cerca de 350 mil perderam sua casa. Além dele, houve acidentes menores: em Three Mile Island (EUA), em 1979, e em Tokaimura (Japão), em 1999. No Brasil, a violação de uma simples cáp¬sula de césio 137, usada em um aparelho de radioterapia, em 1987, em Goiânia, liberou uma radiação que matou quatro pessoas, contaminou 621 e produziu 6 mil toneladas de lixo radiativo.
A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologia com urânio e outros materiais radiativos têm usos em medicina geral, odontologia, saneamento e pesquisa am¬biental, entre outras áreas. Mas a AIEA acompanha e fiscaliza particularmente o desenvolvimento específico da tecnologia para enriquecer urânio, nome dado ao processo de ampliar a concentração de átomos instáveis - urânio 235, ou U-235 -, que existem em baixa concentração na natureza. Com uma concentração de até 3% do U-235, tem-se o combustível em pastilhas para usinas nucleares; com 20%, combustível para submarinos atômicos; com mais de 90%, a matéria-prima para uma bomba atômica. Há um acordo inter¬nacional de restrição às armas atômicas -, o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) -, que entrou em vigor em 1970 e prevê inspeção de rotina nos países participantes. A ele foi agregado, em 1997, um protocolo adicional estipulando ins¬peção sem aviso prévio e sem restrição a quaisquer fábricas, equipamentos ou instalações nucleares.
As nações que querem bloquear o desenvolvimento de tecnologia para enriquecer urânio não repassam essa
tecnologia e lucram com a exportação das pastilhas. Por isso, há países que avançam nas pesquisas para enriquecer urânio, visando a ser auto-suficientes em combustível para as usinas ou para outras finalidades. O Brasil, por exemplo, con¬sidera estratégico fabricar submarinos nucleares com autonomia de combustível para navegar pelos 8 mil quilômetros de costa e desenvolveu a tecnologia de enriquecimento do urânio.
Mas, como o domínio sobre o enrique¬cimento do urânio pode permitir a produ¬ção da bomba atômica, o TNP se mantém aos trancos. Por um lado, os países que têm a bomba atômica desde a implanta¬ção do tratado - Estados Unidos, Reino Unido, França, China e Federação Russa (ex-União Soviética) - comprometeram-se a reduzir os arsenais nucleares, mas não fizeram isso e recusam-se a iniciar negociações. Por outro, querem ampliar as inspeções contra as demais nações, o que boa parte das outras não aceita. Assim, há países que assinaram o tratado de desarmamento, como o Brasil e o Irã, mas não assinaram o protocolo adicional - ou seja, sofrem apenas inspeções nego¬ciadas e restritas a verificar se os níveis de enriquecimento estão de acordo com o uso pacífico. Para fragilizar ainda mais o TNP, a índia e o Paquistão possuem bombas atômicas às claras, e avalia-se que Israel também possua. Esses países não assinam o tratado.
Nos últimos anos, há países que entraram em conflito político e diplomático aberto com o governo dos EUA, com a AIEA ou com a União Européia por enriquecerem urânio ou construir bombas. A Coréia do Norte anunciou fabricar bombas e fez ex¬plosões de testes a partir de 2005, mas acabou assinando um acordo em 2007 de destruir seu arsenal em troca de benefí¬cios econômicos. Mais grave é o conflito aberto com o Irã, que já está na esfera do Conselho de Segurança da ONU, cujos cinco principais países são os mesmos do clube atômico. Os EUA e a União Européia suspeitam que o Irã esteja enriquecendo urânio para fabricar bombas. O governo do Irã, signatário do TNP, afirma que de¬senvolve a tecnologia unicamente para fins pacíficos, que não aceitará limitações à sua soberania e que concorda com as inspeções negociadas com a AIEA, mas isso é tudo. O impasse é um dos focos de tensão no Oriente Médio.

Para saber mais leia Atualidades Vestibular – editora Abril

Nenhum comentário:

Postar um comentário