sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Crise na globalização

A economia mundial chegou à metade de 2009 mergulhada na pior crise desde o fim da II Guerra Mundial (1945). Pela primeira vez neste período, os Estados Unidos (EUA), os países da Europa Ocidental e o Japão estão ao mesmo tempo em recessão - ou seja, enfrentam redução em suas atividades econômicas.
Os principais índices econômicos no mundo mostram essa realidade: a Zona do Euro (países da União Européia cuja moeda é o euro) chegou a abril de 2009 com uma queda acima de 20% da ativida¬de industrial, culminando em 12 meses de retração econômica; os EUA atravessam a mais longa depressão em 64 anos, com a recessão iniciada em dezembro de 2007 chegando ao 18° mês; o comércio mun¬dial, que engloba as exportações e impor¬tações de todos os países, tem previsão de cair 3% em 2009 (o pior resultado em 30 anos); o conjunto da economia mundial deve encolher 1% neste ano, segundo previsões das Nações Unidas.

Bolha imobiliária

Quando falamos do conjunto da ativi¬dade econômica de um país ou do mundo em um ano, usamos a expressão Produto Interno Bruto (PIB). O PIB do Brasil em 2008, por exemplo, foi de 2,9 trilhões de reais, somando o conjunto das atividades da indústria, da agricultura e do setor de serviços. Quando há uma recessão, o valor do PIB em um ano é menor do que o do ano anterior.
Mas, para que as economias tenham bom índice de crescimento, é importan¬te que ele seja maior do que o aumento da população do país, para que as novas levas de jovens que chegam ao mercado de trabalho possam encontrar vagas (esse quadro se expressa no crescimento do PIB per capita - número obtido com a divisão do total do PIB pelo total de habitantes do país). Isso tudo explica por que o cenário de recessão é tão ruim: não só os jovens não acham emprego como parte dos traba¬lhadores perde o emprego que já tem.
A atual crise econômica global teve origem no colapso do mercado imobiliá¬rio dos EUA - o estouro da "bolha imobi¬liária" -, em agosto de 2007, quando duas grandes empresas de financiamento de imóveis norte-americanas quebraram. A causa disso era que a maioria das pessoas que haviam tomado empréstimos com essas empresas para comprar casas não estava conseguindo pagar as prestações, que fica¬ram muito caras, como resul¬tado do aumento da taxa de juros (custo do dinheiro em¬prestado). Cerca de um ano depois, vários dos principais bancos norte-americanos afundaram, já que possuíam boa parte de seu patrimô¬nio composto de papéis baseados nesses financiamentos que não estavam sendo pagos. Como os bancos em dificuldades pararam de financiar as atividades em¬presariais, a economia foi duramente atingida. E, como os EUA respondem por cerca de um quarto da produção mundial, todo o mercado internacional sofreu as conseqüências.
Naturalmente, essa descrição é ape¬nas um resumo de alguns dos principais elementos da atual crise. O Brasil ficou relativamente preservado, mas, como um dos pilares da economia nacional é a exportação de mercadorias - sobretudo para os países ricos -, e caiu bastante o movimento de compra, também es¬tamos sendo afetados.
O fato é que a velocidade e a profun¬didade da crise global se relacionam com o fato de que vivemos a era da globalização, cuja característica é uma grande interdependência das econo¬mias dos diferentes países.
História
Para entendermos a globa¬lização, é preciso saber que o fenômeno em si começou há muito tempo. Os primeiros passos rumo à conformação de um mercado mundial e de uma economia global remontam aos séculos XV e XVI, com a expansão ultramarina européia.
Quando Cristóvão Colombo chegou à América, em 1492, deu início ao que alguns historiadores chamam de primeira globalização. O desenvolvimento do mercanti¬lismo estimulou a procura de diferentes rotas comerciais da Europa para a Ásia e a África, cujas riquezas iriam somar-se aos tesouros extraídos das minas de prata e ouro do continente americano.
Essas riquezas forneceram a base para a Revolução Industrial no fim do século XVIII, que, com o tempo, desenvolveu o trabalho assalariado e o mercado con¬sumidor. As descobertas científicas e as invenções provocaram grande expansão dos setores industrializados e possibili¬taram o desenvolvimento da exportação de produtos.
Começaram a surgir, no fim do século XIX, as corporações multinacionais, industriais e financeiras, que irão se reforçar e crescer durante o século XX. O mercado mundial estava, então, atingindo todos os continen¬tes. A interdependência econômica entre as nações tornou-se evidente em 1929: após a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, a depressão econômica norte-americana teve conseqüências negativas no mundo todo. Enquanto isso, a Revolução Russa de 1917 e outras ocorridas após a II Guerra Mundial retiraram diversos países de unia inserção direta no mercado global. Mas, com o tempo, esses regimes passaram a sentir crescente pressão econômica e política e foram se abrindo, gradualmente.
Neoliberalismo

O fim do século XX assiste a um salto nesse processo. Em 1989 ocorre a queda do Muro de Berlim, marco da derrocada dos regimes comunistas no Leste Euro¬peu. Nos anos seguintes, esses países são incorporados ao sistema econômico mundial. A própria integração da economia global acentuou-se a partir dos anos 1990, por intermédio da revolução tecnológica, especialmente no setor de telecomunicações. A internet, rede mun¬dial de computadores, revelou-se a mais inovadora tecnologia de comunicação e informação do planeta. As trocas de infor¬mações (dados, voz e imagens) tornaram-se quase instantâneas, o que acelerou em muito a integração das atividades econômicas.
No momento atual, há uma política eco¬nômica dominante em escala mundial cha¬mada de neoliberalismo, também conhe¬cida como Consenso de Washington. Essa última expressão surgiu em 1989, durante uma reunião na capital norte-americana, Washington, no International Institute for Economy, quando funcionários do governo dos EUA, de organismos internacionais e economistas latino-americanos debatiam um conjunto de diretrizes para que a Amé¬rica Latina conseguisse superar a crise econômica da época e voltasse a crescer. Era um período difícil para os países latino-americanos, com dívida externa elevada, estagnação econômica, inflação crescente, recessão e desemprego. As conclusões des¬se encontro passaram a ser chamadas in¬formalmente de Consenso de Washington, expressão atribuída ao economista inglês John Williamson, ex-funcionário do Banco Mundial e do Fundo Monetário Interna¬cional (FMI). Por decisão do Congresso norte-americano, essas medidas seriam adotadas como políticas impositivas cada vez que esses países viessem a solicitar a renegociação de suas dívidas.
Mais tarde, as soluções apontadas no Con¬senso de Washington tornaram-se o modelo do FMI e do Banco Mundial para todo o planeta O neoliberalismo prega que o funcionamento da economia deve ser entregue às leis de mercado. Segundo seus defensores, a presença do Estado na economia inibe o setor privado e freia o desenvolvimento. Algumas de suas características são:
- abertura da economia por meio da liberalização financeira e comercial e da eliminação de barreiras aos in¬vestimentos estrangeiros;
- amplas privatizações;
- redução de subsídios e gastos sociais por parte dos governos;
- desregulamentação do mercado de trabalho, para permitir novas formas de contratação que reduzam os custos das empresas.
Historicamente, as idéias do neolibera¬lismo contrapõem-se às do keynesianisnío - ideário formulado pelo economista John Keynes (1883-1946), dominante no perío¬do do pós-guerra, a partir de 1945 -, que defendia um papel determinante e uma presença ativa do Estado na economia como forma de impulsionar seu desen¬volvimento (um exemplo da política de Keynes foi o New Deaí, e, atualmente, apenas nove países (dos 194) monopolizam mais da metade de todo o comércio internacional.
Um dos instrumentos desse crescimento foi a criação da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1995, com o objetivo de abrir as economias nacionais, eliminar o protecionismo (quando um pais impõe taxas pesadas para restringir a importação de produtos e proteger a própria produção) e facilitar o livre trânsito de mercadorias. A OMC funciona com rodadas de discussão sobre temas específicos, que chegam ao fim quando se fecham os acordos. Ocorre que a Rodada Doha, aberta em 2001 (com prazo previsto até 2006), entrou num impasse não resolvido até hoje, pois os países ricos querem maior acesso de seus produtos aos países em desenvolvimento, que buscam restringir as vantagens econômicas que os ricos dão a seus produtores agrícolas, e não se chega a um acordo. O prolongado impasse mostra a dificuldade da globalização em beneficiar o conjunto dos países.
O fato é que, com freqüência, as refor¬mas neoliberais não trouxeram progresso, e em muitas regiões ocorreu o inverso. Segundo o próprio FMI, os anos 1990 foram "decepcionantes" para a econo¬mia da América Latina. De acordo com um relatório de 2005 do órgão, reformas estruturais realizadas estimularam o cres¬cimento, mas não resolveram problemas antigos: o número de pobres aumentou em 14 milhões na década e o Produto Interno Bruto (PIB) per capita caiu mais de 1%, em média, entre 1997 e 2002. Cabe lembrar que as políticas aplicadas nos países da região naquele período foram largamente orientadas pelo próprio FMI.
RESULTADOS DE EMPRESAS REFLETEM A CRISE ECONÔMICA GLOBAL

A crise econômica mundial se refletiu nesta quarta-feira nos resultados de vá¬rios gigantes da indústria, como o japonês Panasonic, o franco-americana Alcatel-Lucent e o americano Time Warner, que registram enorme prejuízos. (...)
O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown (...), lançou um chamado aos líderes mundiais para que adotem medidas de "estímulo monetário e fis¬cal para tirar o mundo da depressão", um termo empregado pela primeira vez pelo dirigente para classificar a crise atual.
A pressão também aumentou para o presidente americano, Barack Obama, para que retire a cláusula "Buy Ameri¬can" (Compre americano) do plano de reativação que está sendo debatido no Congresso.
"O protecionismo atrofia a economia mundial em seu conjunto", declarou o porta-voz do governo do Japão, Takeo Kawamura, referindo-se à vontade dos EUA de proteger seus produtos em tempos de recessão econômica para a primeira potência mundial.
"A prevenção do protecionismo mar¬cou as conversas das cúpulas até agora. Os governos devem manter essa postu¬ra", declarou o porta-voz. (...)
Site VEJA, 4/2/2009
Saiba mais: Atualidades vestibular – editora Abril

Um comentário:

  1. Senhores
    Parece-me que o conteúdo deste artigo encontra-se incompleto, perante o mesmo artigo encontrado na página http://marcosbau.com.br/geogeral/crise-atual-2007-2009-globalizacao-fragmentacao-e-neoliberalismo/

    Existe uma diferença ao final do parágrafo abaixo em comparação com o mesmo parágrafo na página acima indicada:

    Historicamente, as idéias do neolibera¬lismo contrapõem-se às do keynesianisnío - ideário formulado pelo economista John Keynes (1883-1946), dominante no perío¬do do pós-guerra, a partir de 1945 -, que defendia um papel determinante e uma presença ativa do Estado na economia como forma de impulsionar seu desen¬volvimento (um exemplo da política de Keynes foi o New Deaí, e, atualmente, apenas nove países (dos 194) monopolizam mais da metade de todo o comércio internacional.

    e

    Historicamente, as ideias do neolibera¬lismo contrapõem-se às do keynesianismo – ideário formulado pelo economista John Keynes (1883-1946), dominante no perío¬do do pós-guerra, a partir de 1945 -, que defendia um papel determinante e uma presença ativa do Estado na economia como forma de impulsionar seu desen¬volvimento (um exemplo da política de Keynes foi o New Deal, adotado nos Estados Unidos após a quebra da bolsa, em 1929, com maciço investimen¬to estatal para reativar a economia).
    Nas últimas duas décadas, a expansão do comércio global resultou na intensifi¬cação do fluxo de capitais entre os países. A busca de maior lucratividade levou as empresas a investir cada vez mais no mer¬cado financeiro, que se tornou o centro da economia globalizada.

    Caso possível, gentileza esclarecer.

    Grata

    Eliane Machado

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