sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Álcool versos gasolina

Pouco depois do primeiro choque de preços do petróleo, em 1973, o governo fe¬deral iniciou dois programas ambiciosos de mudanças na matriz de energia: o Programa Nacional do Álcool (Pró-Álcool), que se mostrou estratégico para substituir a gaso¬lina em transportes, e o Programa Nacional do Carvão (Pró-Carvão), para substituir na indústria a queima de óleo combustível pela de carvão mineral. Esses programas visa¬vam a evitar que os preços dos combustíveis fósseis, com fornecimento dependente do Oriente Médio, alimentassem a inflação, além de reduzir as importações.
No Pró-Álcool, o governo promoveu e financiou a construção de usinas de álcool. Durante a década de 1980, cres¬ceu a produção de álcool hidratado, que troca a gasolina diretamente no tanque do veículo, e também a de álcool anidro (puro), adicionado à gasolina para fazê-la render mais em volume, com o benefício de reduzir a emissão de poluentes. A fabri¬cação de automóveis e caminhões movidos a álcool começou em 1979 e chegou ao apogeu nos anos de 1983 a 1988, quando as vendas dos novos veículos a álcool eram mais de 100% superiores às dos veículos a gasolina. Nesse período, o consumo anual de álcool chegou ao ápice de 8 milhões de metros cúbicos ao ano, contra 10 milhões gasolina. No fim da década, houve crise de desabastecimento nos postos, e o governo se viu forçado a importar metanol.
Mas, a partir de 1989, a industrialização e as vendas declinaram. Apesar da alta momentânea nas cotações do petróleo em razão da Guerra do Golfo, em 1991, houve estabilização do preço em patamares baixos durante a década de 1990. Assim, o álcool deixou de ter preço atraente para o bolso do consumidor. Ao mesmo tempo, o açúcar passou a ter preço elevado no mercado externo, tornando mais rentável às usinas utilizar sua cana para produzir açúcar para exportação do que o álcool combustível.
No fim da década, o governo terminou por deixar o setor funcionar pelas regras de oferta e procura do mercado. Com isso, o Pró-Álcool acabou morrendo. A produção de veículos a álcool quase acabou, mas não chegou a parar totalmente. Acontece que a estabilização econômica iniciada a partir do Plano Real (1994) provocou aos poucos um crescimento na fabricação e na venda de veículos, com forte impacto no trânsito das grandes cidades e na matriz de energia bra¬sileira Com a alta no preço do petróleo, nos anos 2000, e o início de produção e vendas de carros com motores flexfuel em 2003, o álcool combustível voltou a ser consumido em grande escala nos postos e ganhou novo peso no setor de transportes.
Segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos (Anfavea), as vendas de carros flex, em apenas quatro anos, atingiram 69% do total de veículos comercializados. Elas subiram de 49.264 no primeiro ano para 1.936.853 em 2007, contra 767.446 automóveis a gasolina nesse mesmo ano. Os motores flex podem funcionar com
álcool ou gasolina separadamente ou juntos, com qualquer quantidade de mistura. Caso falte um tipo de combustível, o outro pode ser usado, o que dá enorme segurança ao consumidor. O impacto dessa mudança recente foi - e deve continuar assim - grande na matriz energética brasileira.

Para além do álcool

Com o crescimento da frota e do consumo de álcool, a demanda pelo combustível fora dos picos de safra -quando há mais oferta de cana - faz aumentar o preço e eleva o índice de inflação, o que levou o governo federal a voltar a acompanhar o setor. O governo atua por meio de ações do Minis¬tério de Minas e Energia, de financiamentos do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da empresa federal Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), entre outras instâncias.
Como o interesse por programas e fontes renováveis de energia é mundial, o setor sucroalcooleiro do Brasil passou a atrair investidores privados de dentro e de fora do país. A Petrobras e grandes fundos de pensão associaram-se a empreendimen¬tos de construção de usinas de álcool. O governo federal, por sua vez, passou a ver o etanol como um produto com potencial exportador em crescimento.
Segundo dados da União dos Produ¬tores de Bioenergia, na safra 2005-2006 havia no Brasil 347 usinas de álcool. Para o período de 2010-2011, espera-se contar com 73 novas usinas, com mais 31 vindo a seguir. É ura crescimento de 30% num prazo de meia década: um número muito significativo, se observarmos que todos os números a respeito de crescimento da indústria e da infra-estrutura em qualquer país, em prazos tão pequenos, costumam ser, freqüentemente, abaixo de 5%.

Planejamento é essencial

Em relação à energia, é preciso sem¬pre planejar com muita antecedência para não comprometer o futuro. Um dos fatores importantes é equilibrar as fontes de energia disponíveis com seu uso crescente, e quanto a isso o Brasil tem dois buracos históricos: o consumo de óleo diesel e o do gás liquefeito de petróleo (GLP), vendido em botijão. Isso ocorre porque o consumo desses dois combustíveis é maior do que o petró¬leo que extraímos é capaz de produzir, mesmo o país tendo atingido em 2006 a auto-suficiência em petróleo.
Para entender isso, é importante saber que o processo de refino, também conhe¬cido como craqueamento, consiste em aquecer o óleo bruto para produzir seus derivados. Conforme a qualidade do pe¬tróleo extraído, mais grosso ou mais fino, e a temperatura escolhida em cada etapa, é possível obter um ou mais produtos. Não dá para transformar um barril de petró¬leo inteiro em óleo diesel ou gasolina, por exemplo. E, quando você prioriza certo derivado, e produz uma quantidade maior dele, isso afeta a quantidade dos outros derivados extraídos do refino.
Como mais de 50% de todo o combus¬tível de transporte usado no país é o óleo diesel, principalmente em caminhões e ônibus, a Petrobras prioriza sua produção. Essa estratégia resulta, também, numa produção excedente de gasolina, que a empresa exporta, gerando um saldo que ajuda a pagar as importações. Para cobrir o buraco de GLP, além de importações feitas pela Petrobras., o governo decidiu aumen¬tar a oferta de gás natural, uma estratégia adotada internacionalmente.

Auto suficiência

Como você já deve ter observado, cada nação necessita de determinada quanti¬dade de petróleo diariamente, e, quando consegue produzi-la, diz-se que o país se tornou auto-suficiente em petróleo. O Brasil anunciou oficialmente sua auto-suficiência na produção de petróleo em 21 de abril de 2006, em cerimônia no Rio de Janeiro.
Isso não significa que não importamos mais petróleo ou derivados, pois, como já foi dito, a produção é complexa e envolve vários fatores. Um é que as necessidades de quanti-dade de cada derivado mudam conforme os segmentos que os usam. E a Petrobras pro-duz e comercializa 80 produtos de petróleo. Se há um crescimento intenso do setor de aviação, será preciso mais querosene para os aviões; mas, se o crescimento for no setor de tecidos ou de petroquímicos, a demanda será por mais nafta, e assim por diante. Se o volume produzido internamente de cada combustível não for suficiente, a Petrobras o importa. O resultado é que a auto-suficiência é medida basicamente pelo aspecto contábil, que aparece na balança comercial do país: se o Brasil importar petróleo, suas exportações na área terão de ser maiores, para não haver déficit.
Outro fator importante é a capacidade de refino, pois, quando o país não tem o número de refinarias necessário para processar o petróleo que extrai, também é preciso exportar e importar. A Petro¬bras concentra 98% do refino brasileiro e possui 11 refinarias dentro do país e mais cinco no exterior. O governo planeja construir outras três até 2030, das quais estão definidas uma no Nordeste e outra no Rio de Janeiro. Além disso, haverá investimento para ampliar a capacidade de refino das usinas já existentes.
Em junho passado, o petróleo chegou a ser negociado a 147 dólares o barril. Nesse cenário grave, repercutiu mundialmente o anúncio da descoberta de grandes jazi¬das de petróleo e gás na bacia de Santos. Em 2003, a Petrobras havia confirmado a jazida gigante de gás natural em Santos, batizada de Mexilhão. Em 2007 revelou a mega jazida de Tupi, que pode conter cerca de 8 bilhões de barris de petróleo, ou até bem mais .
A jazida de Tupi está localizada em ro¬chas permeáveis abaixo de uma camada de sal de até 2 quilômetros de espessura, sob o leito do oceano Atlântico, numa profundi¬dade total de até 7 mil metros. Se o volume for confirmado e explorável, vai se somar ao total de reservas atuais, que é de 12 bilhões de barris. Até junho, a Petrobras informava ter perfurado 16 poços nessa jazida, dos quais nove foram testados e revelaram óleo leve e de boa qualidade.

Para saber mais leia Atualidades Vestibular – editora Abril

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