sábado, 10 de abril de 2010

Economia Mundial na Fase Imperialista

“Memória é vida. Seus portadores sempre são grupos de pessoas vivas, e por isso a memória está em permanente evolução.Ela está sujeita à dialética da lembrança e do esquecimento, inadvertida de suas deformações sucessivas e aberta a qualquer tipo de uso e manipulação.
Às vezes fica latente por longos períodos, depois desperta subitamente.
A história é a sempre incompleta e problemática reconstrução do que já não existe. A memória sempre pertence a nossa época e está intimamente ligada ao eterno presente;
a história é uma representação do passado” ( Pierre Nora )
“Então, como podemos sintetizar a economia mundial da Era do Império?
Em primeiro lugar, foi uma economia cuja a base geográfica era ampla.Sua parcela industrializada e em processo de industrialização aumentara: na Europa, devido à revolução industrial na Rússia e em países como a Suécia e a Holanda, até então pouco atingidos por ela, e, fora da Europa, por causa do desenvolvimento da América do Norte e, já até certo ponto, do Japão. O mercado internacional dos produtos primários cresceu enormemente, bem como, por conseguinte, tanto as áreas destinadas a sua produção como sua integração ao mercado mundial.
A economia mundial era, agora, mais pluralista que antes. A economia britânica deixou de ser a única totalmente industrializada e, na verdade, a única industrial. Se reunirmos a produção industrial e mineral, em 1913 os EUA forneceram 46% deste total, a Alemanha 23,5%, a Grã-Bretanha 19,5% e a França 11%.
A Era dos Impérios foi essencialmente caracterizada pela rivalidade entre Estados. Ademais, as relações entre o mundo desenvolvido e o subdesenvolvido também foram mais variadas e complexas que em meados do século XIX, quando a metade do total das exportações da Ásia, África e América Latina se dirigiu a um só país, a Inglaterra. Por volta de 1900, a participação britânica caiu a um quarto, e as exportações do Terceiro Mundo para outros países da Europa ocidental já superavam as destinadas à Grã-Bretanha. A Era do Império já não era monocêntrica.
Esse pluralismo crescente da economia mundial ficou, até certo ponto, oculto por sua persistente e, na verdade, crescente dependência de serviços financeiros, comerciais e da frota mercante da Inglaterra. Por um lado, a “City” de Londres era, mais que nunca, o centro de operações das transações comerciais internacionais. Por outro lado, o enorme peso dos investimentos britânicos no exterior e de sua frota mercante reforçou ainda mais a posição central do país, numa economia mundial que gerava em torno de Londres e se baseava na libra esterlina.
Na verdade, a posição central da Grã-Bretanha estava sendo reforçada pelo próprio desenvolvimento do pluralismo mundial. Pois, como as economias em processo de industrialização recente compravam mais produtos primários do mundo subdesenvolvido, acumulavam em seu conjunto um déficit comercial bastante substancial em relação a este último. A Grã-Bretanha, sozinha, restabelecia um equilíbrio global, pois importava mais bens manufaturados de seus rivais, exportava seus próprios produtos industriais para o mundo dependente, mas principalmente obtinha rendimentos invisíveis de vulto, provenientes de seus serviços comerciais internacionais (bancos, seguros, etc ) e da renda gerada pelos enormes investimentos no exterior do maior credor mundial. Assim, o relativo declínio industrial britânico reforçou sua posição financeira e sua riqueza. Os interesses da indústria britânica e da “City”, até então bastante compatíveis, começaram a entrar em conflito. A terceira característica da economia mundial é a que mais salta aos olhos: a revolução tecnológica.Como todos nós sabemos, foi nessa época que o telefone, o telégrafo sem fio, o fonógrafo, o cinema, o automóvel e o avião passaram a fazer parte do cenário da vida moderna. A quarta característica foi a dupla transformação da empresa capitalista: em sua estrutura e em seu “modus operandi”. Por um lado, houve a concentração de capital, o aumento da escala, que levou à distinção entre “empresa” e “grande empresa”. Esta última, agora monopolista, buscou combater a livre concorrência. Por outro lado, houve uma tentativa sistemática de racionalizar a produção e a direção das empresas aplicando “métodos científicos” não só à tecnologia, mas também à administração.
A quinta característica foi uma transformação excepcional do mercado de bens de consumo: uma mudança tanto quantitativa como qualitativa. Com aumento da população, da urbanização e da renda real, o mercado de massa, até então restrito à alimentação e ao vestuário, ou seja, às necessidades básicas, começou a dominar as indústrias produtoras de bens de consumo. A longo prazo, isto foi mais importante que o crescimento do consumo das classes ricas, cujo perfil de demanda não mudou de maneira acentuada. Foi o Ford modelo T, e não o Rolls – Royce, que revolucionou a indústria automobilística. Tudo isso implicou uma transformação não apenas na produção, pelo que agora veio a ser chamado de “produção em massa”, mais também da distribuição, inclusive do crédito ao consumidor, sobretudo através das vendas a prazo.
O aspecto acima se ajustava naturalmente à sexta característica da economia: o crescimento acentuado, tanto absoluto como relativo, do setor terciário da economia, tanto público como privado – trabalho em escritórios, loja, e outros serviços. Em lugar da classe operária, proliferavam trabalhadores de “colarinhos brancos” e “mãos limpas”. A última característica da economia na Era do Império foi a crescente convergência de política e economia, quer dizer, o papel cada vez maior do governo e do setor público, o que os ideólogos liberais chamavam de “avanço ameaçador do coletivismo” às custas da velha, boa e vigorosa iniciativa individual. Na verdade, tratava – se de um dos sintomas do retraimento da economia da livre concorrência, que fora o ideal – e até certo ponto a realidade – do capitalismo de meados do século XIX. De uma forma ou de outra, após 1875, houve um ceticismo crescente quanto à eficácia da economia de mercado autônoma e auto – regulada, a famosa “mão oculta” de Adam Smith, sem alguma ajuda do estado e da autoridade pública. À mão estava se tornando visível das mais variadas maneiras” ( Eric J. Hobsbawm )

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